
Prática inovadora amplia o olhar sobre crianças internadas e integra aspectos subjetivos e individuais ao cuidado em saúde
O Hospital Municipal Esaú Matos, mantido pela Fundação Pública de Saúde de Vitória da Conquista, passou a utilizar o Prontuário Afetivo (PA) na ala pediátrica como estratégia complementar ao prontuário convencional. A iniciativa amplia o olhar sobre as crianças internadas na unidade ao incorporar, além das informações clínicas, aspectos relacionados à história de vida, aos sentimentos, às preferências e à individualidade de cada paciente.
A prática é conduzida pela Coordenação de Psicologia Pediátrica e tem como objetivo contribuir para uma assistência cada vez mais humanizada e individualizada.

Responsável pela implantação do Prontuário Afetivo no hospital, a coordenadora de Psicologia Pediátrica, Laila Azevedo, desenvolveu, como parte de sua dissertação de mestrado, dois modelos do instrumento voltados especificamente para a pediatria. A pesquisa identificou que se trata do primeiro instrumento com validação científica de conteúdo, em âmbito nacional, desenvolvido para utilização nesse contexto.
O Hospital Municipal Esaú Matos, onde o instrumento foi aplicado e avaliado, tornou-se, assim, o primeiro hospital do país a utilizar esse modelo de Prontuário Afetivo pediátrico cientificamente validado em sua assistência.

Laila, Sueddy, Alice e Wellington
Segundo Laila, o PA é uma tecnologia leve de cuidado e uma estratégia de humanização da assistência. O instrumento reúne informações que ajudam a equipe a conhecer o paciente em sua singularidade, considerando aspectos como identidade, história de vida, vínculos, preferências, sentimentos, valores e necessidades.
“Conhecer aquilo que é significativo para uma criança pode transformar a maneira como a equipe estabelece a comunicação, compreende determinados comportamentos, maneja medos e constrói intervenções mais individualizadas”, explica. Segundo ela, a proposta também favorece uma participação mais integrada da família no processo de cuidado.
A coordenadora ressalta que o prontuário convencional continua sendo indispensável, uma vez que é nele que são registradas informações clínicas, evoluções, procedimentos e outros dados técnico-assistenciais fundamentais para o acompanhamento e a continuidade do tratamento.
“O PA incorpora ao cuidado uma dimensão que nem sempre está contemplada nesses registros: a dimensão subjetiva, relacional e biográfica do paciente. Além de saber qual doença aquela criança tem e quais cuidados técnicos necessita, a equipe pode conhecer elementos importantes sobre quem ela é e sobre a maneira como vivencia aquela experiência”, destaca Laila.
Crianças e famílias participam
A aplicação do Prontuário Afetivo conta com a participação de estudantes de Psicologia da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), que realizam estágio no Hospital Esaú Matos.
Uma das estagiárias, Alice Santana, relata que a iniciativa tem sido bem recebida pelas famílias e pelas próprias crianças.
“No prontuário de 0 a 3 anos, em que os pais praticamente respondem, eles ficam muito felizes e dá para perceber uma boa receptividade ao responder perguntas relacionadas aos filhos. No prontuário de 3 a 12 anos, percebemos as crianças muito participativas, respondendo com empolgação e entusiasmo. Elas se sentem vistas para além da doença e do diagnóstico. É uma forma de humanizar o tratamento e a escuta psicológica”, relata.
Para a estagiária Sueddy Barbosa, a experiência também representa uma etapa importante em sua formação profissional. Segundo ela, o contato com o PA reforça a importância de enxergar o paciente para além da doença ou do transtorno.
“É olhar com mais afeto, mais cuidado, entendendo que cada um é único. Isso enriquece muito. É algo que já estamos cultivando durante toda a graduação, mas que está muito intensificado aqui”, afirma.
Um cuidado que também acolhe as famílias
A experiência tem sido percebida positivamente pelos familiares. Wellington Oliveira, que acompanhou a filha Lis Oliveira, de 5 anos, durante a internação, elogiou a iniciativa.
“O PA trouxe algo novo que não vemos nos outros hospitais. E, por meio do Prontuário Afetivo, entendemos o que a criança está sentindo de uma forma mais lúdica”, afirmou.
Para Wellington, o instrumento também proporciona maior segurança aos pais em relação ao tratamento oferecido à criança, por permitir que ela própria expresse seus sentimentos e preferências durante o período de internação. “É a criança mesmo que está falando o que gosta e o que está sentindo no momento da internação”, acrescenta.
Ao aproximar a equipe da história, dos sentimentos e das preferências de cada criança, o Prontuário Afetivo amplia a compreensão sobre o paciente e fortalece uma perspectiva de cuidado que considera não apenas a doença, mas também a pessoa que está sendo cuidada.
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